Blog da Dona do seu Nariz

Arrastei-me até à escola primária onde voto, confesso que preferia ter ficado em casa enrolada em três mantinhas com paracetamol à cabeceira. Mas fui, porque na sexta-feira a campanha eleitoral terminou, mas aquela que derradeiramente precisamos de encetar como país, faz-se todos os dias: a campanha contra a abstenção.
Estamos sedentos de honestidade e honradez. Exaustos do circo judicial montado à porta da casa da democracia, do número do palhaço rico que ridiculariza o pobre, porque este continua a tropeçar nos seus sapatos disformes e a sorrir ingenuamente perante a vida.
Por estes dias, vemo-las passar velozes pelos corredores dos centros comerciais com manuscritos em punho, que incluem os meninos, os primos dos meninos, os netinhos, uma lembrança para a creche.
Só quem tem filhos é que entende a angústia, porque neles vivem os nossos maiores sonhos na mesma proporção dos nossos maiores pesadelos.
Aquele momento em que fechamos os olhos e os sabores percorrem todos os cantinhos da alma são tão poderosos, que elevam o acto de comer ao patamar de milagre. Porque se é a fé que nos salva, então é a comida que nos cura.
"Passamos horas no beiral desta janela portátil como vizinhas curiosas. Debruçados sobre tudo sem absorver quase nada. Atentos e cautelosos para não nos deixarmos cair."
"Que fique claro que dispensamos que nos abram a porta do carro quando nos fecham todas as outras. Agradecemos a gentileza mas preferimos que estejam ao nosso lado no respeito absoluto pelas nossas particularidades."
Quando o filho do jardineiro José e da cozinheira Dolores nos hipnotiza em cada livre com uma bola, quando a menina Cristina Maria deixa a banca da feira para ser acionista de uma estação de televisão ou quando um calceteiro aspira a ser Presidente da República, estão a colocar o mundo ao contrário ou talvez do lado certo.
Falta-nos a coragem e a energia. Mas mais do que isso, falta-nos a dor dos outros. Por maior que seja a nossa compaixão, nunca saberemos, porque não estivemos lá, no lugar onde os outros sofrem.
Há relações menos íntimas e mais ausentes, mas teimamos em vedar-lhes o acesso à nossa casa porque nos ensinaram a colocar as pessoas em gavetas estanques, como se o nosso coração tivesse de ser fragmentado em prateleiras e a amizade não se pudesse multiplicar.