A saudade é marca registada de Portugal

18-02-2020

O diferente quis ser tão diferente que ficou comum e a cultura passou a consumo. A saudade é a marca registada de Portugal, uma tristeza tão nossa que nos dá o direito de a exportar, como se fosse um valor transacionável na bolsa mundial da alegria. 

Inédito para o Blog

ph: Jorge César
ph: Jorge César

Do nada despertamos para os velhos ídolos e reconhecemos-lhe o valor negado na sua época. Um Variações prodigioso e muito à frente do seu tempo, passou de "panisca" a artista assombroso. As esconjuradas Doces, voltam a brilhar numa bola de espelhos e em nevoeiro que sabe a baunilha. Quando já tínhamos ultrapassado a imagem desnudada de Cid, celebramos um Grammy numa cabana junto à praia. Vai de Lena d´Água a Paião, da Simone à Adelaide, mas também passa pelo telefone de disco, à mala da retornada tia Laura, às colunas de som retrô, o gira-disco e os vinis do Zeca, os sapos do Bordallo, a polaroid numa moldura clean do Ikea e os fatos de treino com mofo do bom.

Ao mesmo tempo que as sanguessugas da exploração imobiliária devastam as nossas cidades, varrem-lhes as pessoas e segregam os pobres, os velhos e os iletrados, acenam-nos em cada viela com tascas de tostas de abacate, miscelâneas em bowls, gelatarias finas, panquecas de 3 andares, cafés com poemas de espuma...tudo detalhadamente exposto para que nos pareça familiar, íntimo e nosso.

O bordel passou a pista, o burlesco a kitsch, a herança devoluta a alojamento local, numa decadência aprimorada que dá trabalho a conceber. Uma estética despojada, de inspiração nórdica, que nos deixa a pensar que todas as casas humildes tinham o chão envernizado, louceiros bonitos, jarros de barro e toalhas de renda. Não tinham. Muitas só tinham fome e frio, num país conservador, analfabeto e tristonho.

Já que veio para ficar, pode esta moda do vintage, do revivalismo e do saudosismo trazer do passado outras coisas boas? O verão que era mesmo verão, o leite na porta e o pão em sacos de pano. Marmelada no parapeito e aquele aroma de presunto que sabe a lareira, a pinho e à minha avó. Podem juntar-lhe 3 colheres de sal branco, normal, sal que salga, que não é cor de rosa e muito menos dos Himalaias? E vinagre que é de vinho, nem de maça nem balsâmico, do que nos provoca arrepios? Bacalhau em lascas e não em cama de uma coisa qualquer? Que sejam petiscos e não tapas? Que o fado seja triste e vaidoso sem acordes de bossa nova. Pode ser tudo reinventado, misturado, moderno, mas autêntico e de preferência regado a azeite virgem.

O diferente quis ser tão diferente que ficou comum e a cultura passou a consumo. A saudade é a marca registada de Portugal, uma tristeza tão nossa que nos dá o direito de a exportar, como se fosse um valor transacionável na bolsa mundial da alegria. Não há bem mais nacional do que esta nostalgia entranhada que emoldura a nossa forma de ser. Mesmo quando sorrimos, a luz do sol reflete uma sombra maior do que nós, que nos curva perante a evidente grandeza.

Mas talvez seja esta uma oportunidade para agarramos o que é nosso, de nos apreciarmos, de aceitarmos e promovermos esta melancolia a património. Talvez, juntos, possamos abraçar esta ideia romântica de trazer o campo para a cidade, o antigo para o presente, o trás para a frente e receber os que chegam com o melhor do nosso coração.


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