Carta para a minha avó: há uma guerra no quintal do nosso vizinho

16-03-2022

E ali estão eles, tão iguais a nós. Podia ser eu. É no quintal do vizinho, mas podia ser no nosso. Podiam ser as nossas árvores, os nossos canteiros de tulipas, a nossa terra. 

In Jornal "Observador"

ph: Dunkan Kidd
ph: Dunkan Kidd

Tenho pensado muito em ti e no que dirias se visses o mundo agora. Estamos a viver uma guerra na Europa, outra vez. Pelos mesmos motivos, com as mesmas vítimas, com morte e dor, fome e fuga, igual aos teus relatos que muitas vezes ignorei por não achar possível voltar a acontecer, com esta crueldade. Fizeram-nos acreditar que a história é cíclica, que se repete como um destino que não se pode alterar, mas não é verdade. A reincidência dos mesmos erros não é algo inevitável, o que permaneceu intacto foi a ganância imensurável dos mais reles, a ambição desmedida dos homens e a fraqueza da humanidade.

Estávamos a virar a página a uma pandemia, uma peste chamar-lhe-ias. Dois anos de luto, de não-vida, enclausurados nas nossas casas, limitados nas nossas demonstrações de afeto, dois anos ferozes que abalaram as nossas certezas e que colocaram a nossa sanidade mental no limite. Estávamos a submergir, a vir à tona com toda a esperança, a reaprender a respirar, voltar a sorrir de face descoberta, quando nos sugam para uma imensidão escura e incerta. Esbracejamos sem saber muito bem para onde ir, estamos sôfregos e tão cansados que às vezes deixamo-nos levar pela corrente. Sonhamos tanto com dias de paz e serenidade, com dias em que boiamos livres num mar azul-turquesa. Ninguém nos preparou para isto.

Mas avó se tu visses estes ucranianos. Estes heróis que abraçam a liberdade com braços fortes e alma firme. Se tu os visses... espantam-nos com a sua coragem e determinação. Que bravos são perante um inimigo cego, desproporcional e ébrio de poder. Uma valentia que lhes está a custar muitas vidas e destruição, uma temeridade que Putin não previa, porque é certo que nunca conhecemos bem os limites da nossa força até nos colocarem à prova. Mas até quando vão resistir? Quantas crianças mais vão morrer à porta das suas casas arruinadas? Quantas mulheres, com meninos assustados pela mão, terão de abandonar os seus homens na fronteira? Quantos idosos de olhar incrédulo vamos perder? Muitos, já são tantos.

Não tenho conseguido rir com a mesma vontade. Contenho-me nas manifestações de felicidade embora digam que a vida tem de continuar. Mas isto é a nossa vida, é o nosso tempo, é constante e real. Como seguir em frente sem temer por eles e por nós? Cada vez que olho para o teu bisneto, treme-me o olhar, vago em lágrimas, e tento esquivar-me das imagens cruas com que nos bombardeiam diariamente, mas é inútil porque permanecem inteiras no meu coração.

E ali estão eles, tão iguais a nós. Podia ser eu. É no quintal do vizinho, mas podia ser no nosso. Podiam ser as nossas árvores, os nossos canteiros de tulipas, a nossa terra. Contra todos os fatos, cultivo a convicção, talvez lhe possa chamar fé, que a primavera vai chegar luminosa, livre e em paz.