Os pais não são eternos, mas ficam para sempre

12-09-2020

Entre bocejos, a tentação de desligar. Repito mentalmente "um dia vais ter saudades de a ouvir". Um dia vamos todos ter saudades de sermos apenas e só filhos 

In jornal "Público"

ph: Tim Cooper
ph: Tim Cooper

São 21h, o relógio aponta num ângulo perfeito e sem falhar, o telefone chama. Todos os dias. É a minha mãe. Pergunta por nós ao mesmo tempo que desfia os detalhes das notícias, dos preços do supermercado, da frescura das frutas, o casaco da Júlia e os resultados do nosso clube. Por vezes, enumera os últimos que partiram e os que nasceram. Ainda se espanta com a frieza dos políticos, com a insanidade de Trump, os casos mediáticos e o estado do tempo.

Deste lado está uma filha exausta, consumida por um milhão de tarefas. Não absorve, mas ouve. Às vezes acha tudo maravilhosamente pequeno, o último reduto de uma época que corria devagar, com estações definidas e datas marcadas, um calendário lunar. Marmelada no Outono, leite creme com canela no Inverno, morangos só na Primavera, chá de limão gelado no pico do Verão. Antes do acordo ortográfico, das redes, dos valores voláteis e portáteis.

Entre bocejos, a tentação de desligar. Repito mentalmente "um dia vais ter saudades de a ouvir". Um dia vamos todos ter saudades de sermos apenas e só filhos. De ter quem se preocupe genuinamente, dos que têm o nosso coração no corpo em todas as horas, de quem espera por uma chamada para dormir, quem nos lembre do casaco e nos afague ao deitar, quem encha a boca de orgulho e nos veja sempre como os mais inteligentes e os mais bonitos.

O peito de um pai vive sempre em ansiedade, nunca sossega, nunca se liberta de inquietação. Entra em taquicardia quando lhe ligam da escola, no dia do exame, na primeira namorada. Nos voos mais altos e nas aventuras rasteiras.

Há tempos ouvia a carta de uma filha ao caixão do seu pai. Foi a dor da morte em cada palavra mas amor em cada sílaba. Uma saudade que ainda nem tinha começado mas que crescia em cada parágrafo. Uma despedida que não é adeus. Um rompimento que não é um corte. Um fim que não é um final. Uns meses depois confessou-me que a dor não diminui, pelo contrário é crónica. Está em cada cadeira vazia, em todas as divisões, naquela data especial, no silêncio que não se preenche. Eu acreditei.

A Júlia passou meses a velar o sono da mãe, todos os suspiros, todos os ais. Não lhe deixou a cabeceira até a sentir mais forte e segura. Porque ainda há filhos assim, que se entregam, que se anulam, que retribuem em dobro as dores do parto, o pão repartido em bocados desiguais. Filhos que passam a adultos e pais que ficam crianças na inversão incompreensível da vida.

O Paulo perdeu ambos perto dos 40 mas isso não diminui a falta que fazem. Em cada conquista que com eles não celebra, a solidão do colo, as alturas em que é menino outra vez, não se amaciam com a idade. É por lembranças como estas que gravo todos os dias dentro de mim as gargalhadas da minha mãe. Porque mesmo sabendo que os pais não são eternos, ficam eternamente em nós. 


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