Refugiados – que pessoas queremos ser?

26-09-2021

Consegue imaginar-se... pequeno, frágil e completamente sozinho, numa terra que não é a sua? Na fronteira do já não existe e do que nunca será? 

In Jornal " Público"

ph: Johann Walter Bantz
ph: Johann Walter Bantz

Samari tem seis anos. Foi gravemente ferida durante uma explosão que atingiu Beirute e perdeu a visão do olho esquerdo. Mohammed, foi queimado por um bombardeio perto da sua casa em Homs, na Síria e tem o corpo rendilhado por uma história que ninguém vai saber explicar. A pequena Rose vagueia pelo labirinto de tendas do campo de refugiados de Impevi, no Uganda, à procura do que beber. Tem cinco anos e os olhos fundos de medo. No Sudão do Sul perdeu os pais e o que aqui vai ganhar estará sempre aquém do que o mundo lhe deve.

Consegue imaginar-se... pequeno, frágil e completamente sozinho, numa terra que não é a sua? Na fronteira do já não existe e do que nunca será? Num exercício mais mordaz à sua humanidade, pense nos seus filhos, bem nutridos, vestidos e calçados, dispostos numa imensidão de vidas suspensas em que todas as faces lhe são estranhas, onde a comida escasseia e a perspetiva de futuro é chegar ao dia seguinte. Angustia-o? Assim espero. Pois preciso de continuar a acreditar que não somos todos um lixo como pessoas e que estas em particular merecem todo o nosso compadecimento.

Cerca de metade dos refugiados do mundo são crianças. Segundo a Agência das Nações Unidas para os Refugiados (UNHCR), perto de um milhão já nasceram com esse estatuto e a maioria não tem acesso a educação escolar. Números que impressionam, mas que não são mais do que resultado de conflitos armados, desastres naturais e mudanças climáticas que abalam diferentes regiões do globo, como o Afeganistão, a Venezuela, a Somália, a Eritreia, entre outros e que ao todo, somam mais de 82.4 milhões de pessoas que se viram forçadas a procurar auxílio fora do seu país, reforçando a estatística de que a cada 2 segundos há alguém no mundo que é obrigado a deslocar-se para escapar a situações às quais é alheia.

Quando em 2015, a Europa começou a lidar com um dos maiores movimentos de pessoas em busca de proteção internacional, desde o fim da Segunda Guerra Mundial, a chamada "crise dos refugiados" trouxe à luz o egocentrismo protecionista que nos caracteriza, extrapolado por movimentos extremistas que hasteiam a bandeira da insegurança e do terrorismo, para nos convencerem que a fragilidade dos outros é um perigo iminente à nossa paz. Ergueram-se velhos muros, fecharam-se fronteiras, varreu-se o problema para debaixo do tapete da desumanidade, ao mesmo tempo que milhares morriam espezinhados entre a fé e o precipício. Desde então, o tema refugiados tornou-se mais real, mais próximo e constante do nosso quotidiano confortável. Espantamos-mos com as imagens de corpos que flutuam entre a Turquia e a Grécia ao mesmo tempo que temos a imoralidade de pormos em causa a franqueza de um abraço de gratidão.

Para vos escrever este texto, trouxe até mim a perplexidade face à maldade humana. Foi fácil tocar-me ao coração. Hoje não sei bem como vou ultrapassar as caras vulneráveis e perdidas de meninos e adultos que constam nas centenas de vídeos e fotografias que vi.